Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

UM DIA DE VERÃO

Epidrama com Fénix

 

O pássaro que nasceu

da concha dos teus seios voa

num céu sem sombra.

 

O caçador, porém

desfechou a certeira seta

do ócio:

 

e os cães disputam

o corpo caído nos canaviais

rasgando as suas asas.

 

Nuno Júdice

 

 

Tendo chegado ao fim da rua, vês de longe

 

Tendo chegado ao fim da rua, vês de longe

que o princípio da rua não existe. O que tu vês

não é calçada ou casa, sequer esquina,

o que tu vês arrasa os próprios olhos

porque os vês vazios.

 

E apenas há quem julgue que chegaste

porque pesas um peso que soltaste

pelo caminho por onde nunca andaste.

 

Pedro Tamen

 

 

 

O caos do sonho

 

Estou deitado no sonho não

perturbes o caos que me constrói

Afasta a tua mão

 

das pálpebras molhadas

Debaixo delas passa

a água das imagens

 

Gastão Cruz

 

 

Cabeza de Lobo

 

Por fim ela abandona a personagem Como irá

continuar? No último espectáculo

chorara

também por si Do cenário

 

apagado como um ácido

resíduo

não irrompe a visão antes tão clara

quando o osso do sol iluminava

 

o inferno real

Ela entra

na ficção improvável Realidade

porque a abandonaste?

 

Gastão Cruz

 

 

Subitamente surge: tem o teu rosto

 

O paraíso terrestre é uma flor verde.

As árvores abrem-se ao meio.

O que é sucessivo perde-se.

Se o tempo modifica os seres e os objectos

eu sinto a diferença e gasto-me.

O sol é um erro de gramática, e a luz da madrugada

uma folha branca à transparência da lâmpada.

Soam então os barulhos. Soam

de dentro das janelas,

de dentro das caixas fechadas há muito tempo,

de dentro das chávenas meias de café.

É tarde e és tu,

acima de tudo,

entre a manhã e as árvores

à luz dos olhos,

à luz do só límpido olhar.

 

Nuno Júdice

 

 

 

 

Murmúrios Impossíveis

 

" quando não estás, não me sais da cabeça",

murmurava o guerreiro e acrescentou

" e, quando estás, eu não consigo

tirar de ti os olhos: nem preciso

 

de to dizer, porque o sabes muito bem"

ela assentiu num gesto imperceptível,

ambos sentiam volúpia e tímidez

e medo que o tempo não chegasse.

 

uma corda vibrava, íntima e funda

ao som do que diziam ou calavam,

mais até se calavam. tudo era tão urgente

e é tão curta a vida, curta vida

 

que umas meias palavras desarrumam.

do mundo resguarda-va-os um pudor inesperado

como a concha da mão protege a chama

de um fósforo riscado contra o vento

 

e talvez tudo fosse também a preto e branco.

de leve deslocado na neblina que subia

das águas, como a juventude ociosa, quando,

perdida a vida por delicadeza, com rimbaud,

 

se expõe ao sobressalto inesperado.

nem prolongada a vida se resolve.

restam suaves melancolias esfumadas.

ele ia construindo a sua torre mais alta,

 

para respirar sem tirar os olhos dela

e sem que ela saísse da cabeça,

mas não sabendo ao certo o que fazer:

talvez fossem desventurados para sempre,

 

ou talvez procurassem ternas cumplicidades,

como se o desejo fosse um jogo feito

de azar e desespero ao fim da noite.

nisto estaria a raíz da sua infelicidade

 

e por delicadeza teriam estragado a vida

este seria o sarro do interdito,

feito do que não disseram ou ousaram,

que mais servira se não fora assim, 

 

mesmo que pentesileia se afastasse das sombras,

mesmo que o filho de peleu ultrapassasse a morte,

mesmo que o sol incendiasse as pedras

que incorporam os mitos nas palavras.

 

Vasco Graça Moura

 

Imagens - Francis Gruber

 

publicado por ionesco às 17:23
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2 comentários:
De Ricardo Campos a 17 de Julho de 2009 às 20:30
Fantástico!!!
De ionesco a 17 de Julho de 2009 às 20:41
Obrigada, Ricardo.

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